Café

cachorro café

No post anterior, quando eu falava sobre as coisas de São Paulo que me fazem falta, mencionei que o conceito de tomar café varia de uma cidade para outra. Uma amiga bauruense-paulistana me perguntou: E qual é o conceito de café em Mococa?

Bem, acho que não posso começar a falar da diferença entre os conceitos de tomar café sem levar em conta o que conheço como princípio. Em São Paulo, tomar café significa muitas coisas, inclusive não tomar café algum.

Veja este caso. Eu costumava tomar café à tarde quase todas as semanas com uma amiga do trabalho em uma loja de bolos deliciosos. Eu pedia um café e um cupcake pequeno. Era um daqueles momentos de felicidade sem tamanho em que me vejo diante de um doce que gosto muito. (Tudo isso faz parte de um ritual pós-almoço, quando tentamos aproveitar ao máximo o tempo fora do escritório; se não cabe uma rede, cabe o momento do café).

Mês passado fui almoçar no fim de semana com essa mesma amiga e convidei: Vamos tomar um café? Fomos. Perguntei a ela qual café ela queria, e ela disse: “Mas Rê, eu não tomo café”. Estupefata, fiquei me perguntando como é que tomamos café por mais de um ano sem que eu notasse que ela jamais tomava café. Estaria eu hipnotizada pelo momento (ou pelo bolinho de banana com recheio de doce de leite)? Distraída? Me lembrei então que ela sempre pedia o cupcake grande; eu o pequeno e o café.

Tudo isso para (re)dizer que, em São Paulo, não é preciso tomar café para tomar café. Isso é simplesmente uma metáfora para um instante no tempo em que é opcional beber um café, um suco, uma água ou mesmo nada. Tomar café é aquele momento de estar em companhia, para colocar a conversa em dia, deixar o tempo passar ou simplesmente tirar uma folga da correria da vida. Assim como não é preciso tomar um café para tomar café, há uma regra implícita no café a dois: se você foi convidado para um café, o requerente gostaria de ter a sua companhia, não importando muito a refeição. Se vocês derem uma volta na esquina, ou descerem o elevador, tudo isso já faz parte de tomar o café.

Já tomar café sozinho é algo que fazemos principalmente fora de casa: no café da manhã, quando saímos apressados e paramos em uma padaria antes de começar o dia; depois do almoço, quando pensamos em ler algo ou ligar para alguém, ou ainda quando precisamos de uma pausa para pensar na vida.

Um café em São Paulo é normalmente mais caro do que em quase qualquer outra cidade brasileira. Mas isso tem um custo embutido: quando você pede um café, imediatamente aluga um espaço. Entre as horas de trânsito, as horas de trabalho passadas e as horas de trabalho que virão, alugar uma mesa só para você no disputado espaço paulistano pelo preço de um café é uma dádiva. Você pode fazer o que quiser ali, ler, escrever, fazer uma ligação, até chorar num dia ruim. Ninguém vai te incomodar. É um código dos cafés (diferente dos restaurantes, que querem vagar seu lugar para o próximo cliente).

Com apenas um ano e meio morando em minha nova cidade, não sei se já consigo ler profundamente o significado do café em Mococa. Mas vou tentar. O café aqui começa na paisagem. Com um pezinho em Minas Gerais e próxima à Cooxupé, a maior cooperativa de café do mundo, é preciso apenas pegar a estrada para ver os exuberantes pés de café da cidade e da região. Isso diz um pouco da familiaridade das pessoas que vivem aqui com a natureza do café.

No cotidiano, o café me parece significar acima de tudo uma boa recepção. Oferecer um café ao visitante é um sinal de boas-vindas. Insistir no café, de amorosidade. O café traz um ambiente envolvido por risadas, prosa e cheiro de pão de queijo (ou chipa, uma versão de pão de queijo que descobri recentemente).

Aqui também se toma o café preto de manhã (ou pingado, conforme a preferência). A diferença é que o lugar do café é sempre em casa, seja antes de trabalhar, para receber as visitas ou para aquele momento no meio da tarde (fazer café à tarde é um dos meus prazeres). Nota-se logo que não faz muito sentido sair para tomar um café. Aqui você tem tempo de passar aquele cafezinho, você tem tempo e braços abertos para receber os amigos em casa para um café.

 

Saudades paulistanas

É bonito como vemos este casal entre os vagões do metrô. Essa cena é comum nos metrôs de São Paulo, pontos de encontro, quando muitas vezes deixamos de lado a correria por alguns segundos para admirar um beijo apaixonado, um olhar cúmplice, um abraço apertado ou um sorriso de boas-vindas

Ontem foi aniversário de São Paulo e aproveitei para me lembrar de tudo que meu coração sente falta quando o assunto é minha cidade natal.

 

Das andanças

Passear na Paulista

Descer a Augusta

Flanar pelas alamedas (sendo a minha preferida a alameda Casa Branca)

Os trajetos do meu bairro eleito:

Metrô Butantã, Vital Brasil, Corifeu (de Azevedo Marques), cidade universitária

Saudades de muitas ruas

As simpáticas da Pompeia

As agitadas de Pinheiros

Com nomes poéticos na Vila Madalena

Com muitos passantes em Pirituba

Com a beleza histórica no Centro

E particularmente a Centenário do Sul

 

Dos programas preferidos

Sentar no café e olhar ao redor

Tomar um café ou almoçar ou jantar com alguma boa companhia

Tomar café da manhã na padaria (tanto o pingado com pão na chapa quanto o brunch de domingo)

Café, café, café

(e o conceito de tomar café, que, eu não sabia, mas difere quando você está em outra cidade)

Ver filme na Augusta

Passear na Livraria Cultura

Observar o movimento no vão do Masp

Almoçar e ir a happy hours com amigos do trabalho

Andar sem rumo

 

Das sensações boas de São Paulo

Sentir-se invisível

Ver a beleza através do caos

Apreciar os grafites e as mensagens nas paredes da cidade

Estar perto da minha família e dos amigos

Saber que a cidade está sempre à minha espera

(“selva de concreto onde são feitos os sonhos, não há nada que você não possa fazer, as ruas vão te fazer sentir novo em folha, as luzes vão te inspirar”)

 

Das viagens gastronômicas

Peruano da República

Mexicano na rua dos Pinheiros

Italiano na Antônio Bicudo

Grego na rua da Graça

Polonês na Mourato Coelho

Japonês na Pedroso de Moraes ou na Liberdade ou na esquina de casa

 

Da pizza

Se eu pudesse faria uma ode à pizza de São Paulo

Que falta ela me faz!

Aliche da Bruno

Meia mexicana meia chilena da Luana

Castelões da Brás

Qualquer uma de qualquer lugarzinho do bairro

Porque pizza em São Paulo é algo maravilhoso

 

Eu prometi a mim mesma não citar trechos da música Sampa do Caetano Veloso quando comecei a escrever este post…rs Mas ela traduz infinitamente a minha visão de São Paulo, quando troco avenida Ipiranga por avenida Paulista e a São João pela Consolação, então vale a menção!😀

Feliz aniversário, São Paulo!

(A foto do começo do post é do projeto Beleza no Caos, para quem quer matar um pouco a saudade de São Paulo ou espiar melhor a cidade. A cena da foto é comum nos metrôs de São Paulo, utilizados como pontos de encontro; muitas vezes deixamos de lado a correria por alguns segundos para admirar um olhar apaixonado, um beijo arrebatador, um abraço apertado ou um sorriso de boas-vindas.)

Dicas de leitura: primeiras frases cativantes

Sou muito curiosa a respeito das primeiras frases de um livro. Sinto que aquelas primeiras palavras podem me fazer uma promessa. Ao longo dos anos, já li livros que conseguem fazer essa promessa de um jeito que faz a vida fazer mais sentido. Deixo aqui algumas das minhas primeiras frases preferidas e, claro, a dica de leitura de seus respectivos livros.

Carta a D.: história de um amor, de André Gorz

“Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.”

 

A fazenda africana, de Karen Blixen

capa do livro A fazenda Africana“Eu tive uma fazenda na África, aos pés dos montes Ngong. A linha do equador cruza aquele planalto ao norte, a 160 quilômetros da fazenda, situada a uma altitude de mais de 1.800 metros. Durante o dia, a sensação ali era de estarmos nas alturas, mais próximos do Sol, mas o amanhecer e o anoitecer eram límpidos e serenos, e esfriava à noite.”

 

Na praia, de Ian McEwan

capa livro ian mcewan“Eram jovens, educados e ambos virgens nessa noite, sua noite de núpcias, e viviam num tempo em que conversar sobre as dificuldades sexuais era completamente impossível. Mas nunca é fácil.”

 

 

Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa

capa livro grande sertão

“Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.”

 

 

 

Cem anos de solidão, de Gabriel García Marquez

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.”

 

 

Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf

capa livro mrs dalloway

“Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores.”

 

 

 

Espero que gostem das sugestões!

Até breve, Bowie!

Esta é uma linda foto do David Bowie. A moça que olha para ele com admiração poderia ser eu, você ou qualquer um de nós que se sentiu tocado por ele ter o incrível de dom de, em sua estranheza, nos tornar familiares Crédito da foto: Michael Ochs-Corbis
David Bowie em 1973 com uma fã. A moça que olha para ele com admiração poderia ser eu, você ou qualquer um de nós que se sentiu tocado por ele ter o incrível dom de, ao assumir sua estranheza, nos tornar familiares. Crédito da foto: Michael Ochs/Corbis

Hoje li a notícia de que o David Bowie morreu e me senti tocada. Tocada pela partida de alguém que também tocou a minha alma com sua intensidade e sua arte. Me lembrei então desta parábola e quis publicá-la aqui, por que às vezes é preciso parar no meio do dia para sentir o luto e dar adeus às pessoas queridas.

O mestre de um templo zen-budista no Japão havia falecido. No cortejo fúnebre, muitas flores e cânticos; um clima leve pairava no ambiente. Os monges e as pessoas que atendiam a cerimônia haviam absorvido muitos dos ensinamentos do mestre, e sabiam que a vida era passageira. O mestre havia morrido em paz; não foi uma morte sofrida nem dolorosa. No entanto, o discípulo mais próximo do mestre, considerado o mais sábio entre os monges, estava em prantos. Chorava, tremia e soluçava copiosamente. Os outros monges estavam perplexos; como ele, o mais sábio, cotado para ser o próximo mestre, estava em um estado tão miserável? Um deles se aproximou do monge que chorava e perguntou: “O que há contigo? Não sabe que o mestre se encontra unido novamente com a natureza e a divindade? Não há motivo para lágrimas”. Ao que o monge que chorava respondeu: “Querido irmão, meu espírito está em paz. Quem chora são meus olhos, que não poderão mais enxergar o mestre. Quem treme é o meu corpo, que não poderá sentir a proximidade do mestre. Quem agoniza são meus ouvidos, que não mais escutarão suas palavras. Meu corpo se acostumou à presença do mestre e agora lamenta a sua partida. Eu não desejo me opor a ele; deixarei que chore, deixarei que sofra, até que se acostume à sua nova vida, longe do mestre”.

Resoluções

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Comecei 2016 em boa companhia! Crédito da foto: F. J. Stefanelli

No ano passado, não fiz nenhuma resolução de ano novo, apenas decidi seguir em frente em meio a grandes mudanças de vida e ficar bem. Acho que deu certo: cheguei até aqui e sou muito grata por 2015 ter sido um ano mais tranquilo em minha vida.

Tenho uma lista que fiz aos 27 anos de coisas a fazer antes dos 30. Já completei 30 e ainda não fiz tudo, mas continuo olhando para ela de vez em quando, agora com a certeza de que sonhos não têm prazo de validade. Fiquei feliz ao me dar conta que em 2015 realizei mais um desejo dessa lista, mas o mais interessante de uma lista feita há cerca de três anos é que o período em análise é maior, e, se a gente vê o que não fez, percebe muito mais quantas coisas que não havíamos previsto aconteceram, tantas coisas boas que não dá para planejar.

Este ano decidi fazer apenas uma resolução de ano novo. Quero acabar com aquela dorzinha nas costas e a falta de fôlego ao subir uma ladeira, por isso me propus a arrumar um lugar na minha vida para os exercícios físicos. Quem sabe isso não me ajuda a cumprir um desejo que está na lista não escrita da vida, que é o de um dia subir uma montanha (um dia encafifei com esta ideia e pronto: o Kilimanjaro ronda meu imaginário seguido pelo Monte Roraima).

Já comecei com os exercícios e me sinto bem. Vou usar aquela técnica de fazer todos os dias do ano para ver se se torna um hábito, além de variar entre vários exercícios, preferencialmente aqueles que eu possa fazer sem muitos recursos (financeiros, de equipamentos, de tempo). Tem um anime cujo segredo do personagem capaz de derrubar um adversário com um soco é fazer todos os dias: 100 agachamentos, 100 abdominais, 100 flexões e correr 10 km. Então, ao final deste ano quero estar apta a derrubar alguém com um soco, e desejo que meu espírito se desenvolva igualmente para que eu não queira usar minha nova habilidade em nenhum momento.😀

Também pretendo andar de bicicleta, aproveitando que estou no interior (preciso consertá-la antes). Mas por enquanto comecei de maneira simples, com o que posso fazer hoje sem precisar de quase nada além de um pouco de tempo e disposição para mudar.

Em 2016 desejo isso a todos que quero bem: um pouquinho de tempo e disposição para mudar uma coisa por vez!

Feliz 2016!

Cosac Naify

Carta a D. - História de um amor, de André Gorz, foi um entre tantos livros da Cosac que me emocionaram. Trecho: “Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher”. Nas fotos, Dorine e André Gorz, e o crédito de ambas é da Éditions Galilée
Carta a D. – História de um amor, de André Gorz, foi um entre tantos livros da Cosac que me emocionaram. Nas fotos, Dorine e André Gorz, e o crédito de ambas é da Éditions Galilée

Eu me lembro bem. Esperava um grande amigo para contar a melhor notícia dos últimos tempos (e eu ainda não sabia, mas seria uma das notícias que guardaria com carinho por toda a vida). Era o quarto ano da faculdade e eu estava sentada em um banco da FFLCH. Eles tinham me ligado, a vaga era minha. Eu iria trabalhar na Cosac Naify! (Pulos conjuntos de alegria!)

Foi meu primeiro emprego efetivo em uma editora e a vaga era para assistente editorial. Me lembro do meu primeiro dia de trabalho. Sustos e deslumbramentos. Cheguei na editora e havia pessoas gritando não sei o quê no corredor. Eu estava sentada num banquinho aguardando que alguém me recebesse, um pouco assustada com a gritaria, tentando parecer invisível, até que percebi que estavam imersos em alguma discussão. Acho que esqueceram que eu chegaria, então esperei um pouco.

Logo o diretor editorial apareceu, muito educado, e se apresentou. Pediu que eu fizesse a leitura de uma obra – era a prova impressa de O livro amarelo do terminal, da Vanessa Barbara –, anotasse algum erro que encontrasse e ao final desse minha opinião sobre a publicação. Eu passei a tarde lendo o livro e achei que meu incrível trabalho seria esse. Depois vim a descobrir que não…rs Ainda teria que bater emendas e conferir referências bibliográficas, tarefas que eu sempre gostei no meu trabalho e que muitas vezes são subestimadas (aprende-se muito batendo emendas). Foi esse mesmo diretor que, uma vez, deixei na mão sem o contato de uma revisora para um livro que era urgente, ao sair com pressa por causa de uma prova na faculdade (e senti vergonha pelo esquecimento no dia seguinte) . Ele me disse gentilmente quando saí: “Eu não sei o que você está procurando, mas espero que encontre”.

O difícil ali não era fazer os livros, era mesmo lidar com as pessoas. Havia aquelas inteligentes e educadas, às vezes brilhantes, com quem poderia aprender muito; outras, igualmente inteligentes mas um pouco tresloucadas, tinham atitudes que eu jamais compreenderia em qualquer ambiente de trabalho: o tom de voz elevado, o envolvimento em disputas para saber quem era mais importante. Talentos egotistas.

Eu era muito tímida na época, aos 23 anos, e ainda carregava comigo o eterno desconforto de não pertencer àquele mundo (não o da literatura, mas o da elite dos editores e autores de literatura). Não fiz amigos ali dentro, apenas alguns poucos colegas com quem perdi contato com os anos e que eram pessoas educadas e sem grandes necessidades de disputas intelectuais ou artísticas, apenas queriam fazer um bom trabalho, em uma editora inspiradora. Lembro dos talentos de cada um com quem trabalhei; a vantagem de ser tímida é que essa característica sempre favoreceu minha capacidade de observação.

Tenho lembranças muito fortes daquele tempo. Foi lá que eu conheci a Lena, que contava a incrível história de como conheceu o Cortázar, que eu ouvia com muita excitação (e isso foi o mais próximo a que cheguei fisicamente da grande literatura… rs). Um dia espalhei fotografias do Aurélio Becherini em uma mesa para auxiliar na seleção e legendagem; segurava cada uma com delicadeza, com medo de quebrar o passado. Revisei o livro O suplício do Papai Noel, meu primeiro contato com o francês, o Lévi-Strauss e um projeto gráfico que eu achava lindo de morrer . E houve aquele dia em que levei um sermão notável por ter feito uma separação de sílabas (gramaticalmente correta) no texto de contracapa de um livro de fotografias, pois “aquele era um livro de imagens e o leitor desse tipo de livro espera o mesmo cuidado estético que temos com a imagem quando lidamos com o texto”. Na hora eu fiquei p. da vida porque estava tomando sermão por uma coisa que não estava errada (gramaticalmente); só depois fui entender a validade daquele sermão: a dedicação a que se pode chegar na publicação de uma obra.

Passou o tempo e eu sempre busquei a Cosac em outros trabalhos, pois lá os livros eram feitos de uma paixão e um comprometimento que eu jamais havia visto. A profissão de editor ainda existia por lá, o que eu fui percebendo, conforme adquiria experiência, que não acontecia em todo lugar. Eu procurava uma profissão em extinção; hoje o editor muitas vezes é um homem de vendas.

Por tudo isso, eu fiquei triste quando li o anúncio de fechamento da Cosac no início do próximo ano. Também por ser uma editora cuja riqueza do catálogo é imensurável. Tanta coisa tornada pública que de outra forma não veria a luz do dia! Comprei esta semana alguns livros para completar coleções e outros que gostaria de ler. Entre os selecionados, muitos infantojuvenis, por dois motivos: um, porque eu adoro o gênero. Outro, porque pretendo ter filhos um dia, e eu gostaria de apresentar a eles um mundo em que a Cosac Naify ainda exista.

 

 

 

 

 

 

Pingo e Pretinha

Com o passar dos dias, tornou-se cada vez mais difícil deixar a casa. Naquele dia em especial você estava majestosamente deitada sobre o cobertor vermelho, de costas para mim, e eu pensava em sua alma atrevida, caçadora e angelical. Você lambia seu pelo preto com afinco e eu sabia que aquela cena para mim representava a alegria em sua forma mais pura. Eu sorria e me sentia em paz. Não queria deixar a casa.

A janela dava de frente para a rua e era baixa, com cortinas brancas e pouco esvoaçantes. Na cortina havia uma marca escura de sujeira. Um cachorro passou na rua. Você e seu irmão correram para se encarapitar na janela (mais marcas de patas na cortina) e latiram para aquele ser de quatro patas passando desavisado.

Vocês estavam cada vez mais bonitos, com o pelo cada vez mais brilhante. A Pretinha sempre doce com as pessoas. E o Pingo, este gostava de mostrar os dentes. Mas depois corria para mim, e me lambia. Deitavam então os dois juntos no cobertor vermelho. Dois cachorros entediados. A vida mansa do lar.

Eram mais de onze horas e eu tinha que deixar a casa para pegar o ônibus e partir. Eu disse a vocês: “Não se preocupem, volto em breve. E não chorem”.

Links da semana – 17.11.2015

Apê da Dani Noce no Histórias de Casa Crédito da foto: Histórias de Casa
Apê da Dani Noce no Histórias de Casa
Crédito da foto: Histórias de Casa

Os assuntos dos links indicados são os mais aleatórios possíveis, mas sempre algo que me inspira ou me diverte. Os desta semana são os seguintes:

Achei interessante a indicação de programas para fazer em São Paulo sobre os quais a gente não ouve muito falar nos roteiros turísticos.

Esta dica simples pode ajudar a estabelecer prioridades nos dias mais turbulentos.

Fiz a receita esta semana (inclusive as sementes) e recomendo pela facilidade e gostosura. Usei ervas secas em vez de frescas, porque não tinha, mas mesmo assim ficou uma delícia.

Este lindo blog conta as histórias por trás da decoração em casas dignas de Pinterest. O mote do blog me lembrou as chamadas de programas sobre animais – trocando bicho por gente: “Quem são essas pessoas? Do que elas vivem?”…rs.

Boa semana!

Ares interioranos

Eu voltando de um mergulho no rio Pardo com meu amigo Jean ao fundo e a foto é de Francisco J. Stefanelli
Eu voltando de um mergulho no rio Pardo com meu amigo Jean ao fundo. Crédito da foto: F. J. Stefanelli

Os ares interioranos são verdadeiramente estimulantes, de um estímulo mais sutil do que temos em São Paulo. É preciso aprender a apreciar o vento da manhã, o dia que parece durar mais, o contato com a natureza. Mesmo morando em uma cidade (e não no mato, como muitos amigos imaginam…rs), é possível sentir a natureza. Eu reparei este ano, por exemplo, no início da primavera. Os insetos começam a aparecer e em dois dias nota-se: é primavera, acabou o inverno.

Durante a noite, já me acostumei a trabalhar em meio aos besouros, que são atraídos pela luz e entram pela janela. Vez ou outra um deles cai sobre meus ombros, e eu apenas preciso dispensar um leve tapa para que ele continue a vagar, agora pelo chão da sala. Os cachorros não se incomodam com eles.

Os insetos e a primavera vêm acompanhados de muito calor – um calor veranil propício a banhos de balde, mangueira, rio ou cachoeira, conforme permite a sorte. Em razão do calor, no último fim de semana fui explorar as águas da região. Mergulhei no rio Pardo e ainda fiz de cachoeira a pequena queda d’água da usina hidrelétrica Itaipava, construída em 1909 por Henrique Santos Dumont. Para chegar até esse trecho do rio, passamos por uma pequena trilha e saltamos por algumas pedras, pois o nível d’água está baixo por conta das poucas chuvas.

O mais interessante dessas vivências é o olhar pueril para cada descoberta da (para mim) natureza selvagem; para mim que deixei a selva de pedra, onde havia mais contato com a natureza dos homens e do concreto ― embora mesmo lá a natureza se manifeste sempre, pela falta d’água ou pelas enchentes, na flor que insiste em brotar no asfalto, e até onde não está mais, quando seu espectro grita silenciosamente para que possamos ouvir sua ausência.

GTD – Getting Things Done: um método de produtividade

David Allen e a frase que reflete o método:
David Allen e a frase que reflete o método: “A sua mente foi feita para criar ideias, não para guardá-las”. Foto do site: gettingthingsdone.com

Quando comecei a me organizar em casa, eu passei a ler o blog  Vida Organizada, da Thais Godinho, que me ajudou muito a entender e a colocar em prática algumas regras de organização, como “não dá para organizar tralha”, “cada coisa precisa ter seu lugar na casa” e “sempre que sair de um cômodo leve o que está fora do lugar” (esta última ela chama de “dança dos cômodos”). Tudo isso eu já sabia teoricamente, mas ela coloca de um jeito que torna fácil perceber onde você está errando. A Thais acredita que a organização pode ser feita aos poucos e que tudo é a construção de um hábito. Eu, que sempre fui a maior bagunceira, agora me considero organizada, então posso atestar que funciona, embora seja sempre um processo em andamento.

Eu gosto muito do conceito de organização da Thais. Para ela, organizar não é só arrumar umas coisinhas ali e outras aqui (aliás, outra coisa que aprendi com ela é que organizar é diferente de arrumar). Ela entende a organização como algo global que ajuda a dar sentido à vida, pois quando estamos tranquilos e tudo está organizado, a vida flui melhor e a gente se dedica mais aos nossos projetos. Foi pensando nisso que, depois da casa, veio à tona a necessidade de organizar outras áreas da vida, como o trabalho, os estudos, as finanças, entre outras. Tem dias que minha cabeça fica cheia com tanta coisa a fazer (o famoso “não sei por onde começar”), ainda mais agora que sou freela e não tenho rotina fixa (há dias com muito trabalho e dias com pouco ou nenhum trabalho); ao mesmo tempo, a ausência de rotina exige mais disciplina para dar conta dos prazos apertados ou para fazer algo importante no tempo certo, em vez de em cima da hora, quando tenho mais tempo.

Enquanto eu aprendia sobre organização básica, a Thais sempre publicava textos sobre um método de produtividade chamado GTD (Getting Things Done) que ela estuda e aplica há cerca de dez anos e que mudou a vida dela. Confesso que muitas vezes pulei esses posts. Primeiro porque eu achava que isso era algo de organização “nível avançado” enquanto eu ainda estava no nível “organização para dummies”. Segundo porque eu sempre tive um pouco de bronca da palavra “produtividade” porque me lembrava um pouco as linhas de produção e me parecia uma daquelas palavrinhas mágicas que as empresas usam para tirar sangue do funcionário (junto com “sinergia”). Mas aí eu descobri que existe uma definição de produtividade mais ampla, no sentido de contribuir para que a gente faça as coisas acontecer com mais calma e de maneira mais eficiente. Eu gostei desse conceito porque é exatamente o que eu estava precisando para organizar principalmente o meu trabalho, e foi então que me permiti conhecer o GTD.

O que é o GTD?

O GTD é um método de produtividade criado pelo norte-americano David Allen. A ideia do método é tirar da sua mente todas as informações sobre o que você precisa fazer e colocar em um sistema confiável fora da sua cabeça, para permitir que a mente fique “clara como a água” (me lembrou da filosofia do Bruce Lee); assim, você pode aproveitar melhor seu nível de energia e criatividade se não tiver ocupando o espaço do seu HD mental com tarefas que você tem medo de esquecer.

Para saber mais sobre o GTD

Se você tiver interesse em saber mais sobre o método, além do livro do David Allen, cuja nova edição acabou de ser lançada pela editora Sextante, a Thais escreveu este post simples e introdutório que ajuda a entender o que é o GTD e que faz parte de uma série bem legal chamada Aprenda GTD. Também li este post muito interessante do blog Todoist escrito por alguém que se debateu um pouco com o método e encontrou algumas soluções para aplicá-lo.

O que eu me propus a fazer para começar

Quando eu comecei a ler sobre o GTD, achei que não poderia ser tão difícil assim entender e aplicar um método. O problema é que a base do método é tirar tudo o que está na sua cabeça para colocar “no papel” (não precisa ser necessariamente papel, as ferramentas podem ser eletrônicas). Só que a minha cabeça, como a de quase todo mundo, é um novelo de tarefas, pensamentos e projetos cuja ponta é bem difícil de encontrar. Como acho mais fácil aprender praticando, defini os seguintes passos para começar a estudar o método:

  1. Ler o livro do David Allen;
  2. Reler a série Aprenda GTD;
  3. Escolher as ferramentas mais adequadas para aplicar o método;
  4. Começar a “capturar”, que é o primeiro passo do GTD. De acordo com o meu entendimento inicial, isso significa anotar diariamente em uma lista (que o David Allen chama de “Caixa de entrada”) tudo que vem à minha mente. Pode ser uma tarefa, um compromisso, um projeto, um sonho, um simples lembrete ou uma referência para o futuro;
  5. Dominar o nível ground. O método também é dividido em níveis. O nível ground é o primeiro que a pessoa deve resolver, porque se não tiver isso sob domínio, não vai conseguir se dedicar a projetos maiores. Envolve tarefas, compromissos, e-mails, rotinas, reuniões, arquivos de referência, fluxo de trabalho e espaço físico.

Por enquanto é isso, e aos poucos vou compartilhando o que estiver aprendendo.

Alguém usa o GTD ou conhece algum outro método de produtividade interessante?